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os monstros são nossos amigos

apontamentos para monstroário, por constantino corbain 

15.11.09


cxl. qualquer fantasma permanece estranho até ao momento do reconhecimento. o reconhecimento é o reflexo fatal, a identidade que se encontra consigo, devolução que implica uma presença desdobrada, duas entidades no mesmo corpo. que parte é mais falsa ou mais verdadeira?, não se sabe. o jogo da identidade é assim, de fusão. o espectro é a unidade de alguém e dos fantasmas que compõem a integridade desse alguém. em tais circunstâncias, não é um chápéu que faz ou há-de fazer a diferença.

the go-betweens, “the ghost and the black hat”, in liberty belle and the black diamond express, beggars banquet, 1986.

referência

1.11.09


cxxxix. na geografia do assombro, os espíritos estão de um lado, os fantasmas estão de outro. o fosso que os separa é largo, maior do que o mundo, porém não é tão monumental que não possa ser medido. em rigor, a largura do fosso corresponde à distância entre o que é assento mortal e o que é manifestação onírica. como é óbvio, não é distância que mantenha os fantasmas além ou em contradição connosco.

guided by voices, “ghost of a different dream”, in under the bushes under the stars, matador records, 1996.

referência

18.10.09


cxxxviii. fale-se de problemas. um problema não é ver espectros, a avulso ou a granel, é ver uma barca sem piloto ou tripulação, porque, se a barca aproximar-se, é possível discernir a face dos fantasmas que a conduzem. no entanto, se se percebe a face dos fantasmas navegantes, um reflexo de quem olha, sobra a dúvida: quem está de passagem?, quem fica na margem?

menomena, “ghostship”, in friend and foe, barsuk records, 2007.

referência

4.10.09


cxxxvii. no princípio o fim é um horizonte para a decifração. se lenta, se precipitada, depende da velocidade de aproximação ao e do fim. decifrado, o fim torna-se continuação. é por isso que, como antes, agora e depois, os fantasmas pairam por toda a parte. não é uma questão de ubiquidade ou de felicidade, é uma questão de finalidade e de mesmidade.

andrew bird, “not a robot, but a ghost”, in noble beast, fat possum records, 2009.

ao programa ducentésimo.

referência

20.9.09


cxxxvi. ver fantasmas é confrontar as figuras do medo que estimamos e intimamos. ver fantasmas - por serem reflexos espectrais ou pálidos - é um processo de devolução e guarda. provavelmente é até um processo de autenticidade e autocertificação.

bowerbirds, “ghost life”, in upper air, dead oceans, 2009.

referência

6.9.09


cxxxv. compreendidos pelo que compreendemos e vice-versa, somos elipse da culpa, movimento ou gesto pelo qual a falta se dirige a si para ser-se, justamente por não ser possível veredicto diferente da culpa que começa ou acaba em cada um de nós.

antony and the johnsons, “shake that devil”, in another world, secretly canadian, 2008.

referência

23.8.09


cxxxiv. o maior dos males não é o diabo, é o pormenor que, consentido por nós, somos através dele, porque ele nos é como o somos.

marnie stern, “the devil is in the details”, in this is it and i am it and you are it and so is that and he is it and she is it and it is it and that is that, kill rock stars, 2008.

referência

16.8.09


cxxxiii. o corpo é a habitação e a habituação do diabo. ninguém espera ou pode esperar a faculdade de ser diferente de quem acolhe dentro de si, porque, ser assim, seria não ser.

portugal. the man, “the devil”, in the devil say i, i say air, fearless records, 2006.

referência

2.8.09


cxxxii. como qualquer monstro, o diabo dança simultaneamente em máscara e em identidade. através dele, do que ele consente ou conquista, não há auspício ou salvação, há apenas consequência, a consequência que cada um de nós é, a consequência que somos e podemos ser em solidão ou comunhão.

the fiery furnaces, “cabaret of the seven devils”, in widow city, thrill jocky records, 2007.

referência

19.7.09


cxxxi. qualquer um de nós está disposto tanto ao bem quanto ao mal e de modo igual. a graça acontece-nos com a mesma probabilidade com que nos acontece a desgraça, a virtude ou a corrupção, o amor ou o ciúme e o ressentimento, o amparo ou a queda, a dúvida ou a certeza. na vida que, quando é, é nossa, há margem para a intenção, a escolha, o erro e a morte, jogando em coordenadas semelhantes que são tanto das manhãs e das tardes quanto das noites. não é por acaso que, como qualquer monstro, o diabo nunca dorme sozinho. ele não dorme.

iron & wine, “the devil never sleeps”, in the sheperd’s dog, sub pop, 2007.

referência

21.6.09


cxxix. a aspiração ao absoluto é a falha maior de quem pretende conhecer-se. a certeza de si é um modo de realizar e expressar um limite que, enquanto tal, ninguém alcança. resolvermo-nos na diferença, não na contingência ou no projecto, é o que tentamos por nunca termos a certeza de quem e do que somos. monstros talvez.

the national, “you’ve done it again, virginia”, in lit up, beggars banquet records, 2005.

referência

7.6.09


cxxviii. diante deste enunciado, a minha terra é estrangeira, talvez demasiado, porque eu nela, acontece o confronto. podemos temer os monstros, mas, por e para cada um, não os podemos afastar, sem nos afastarmos de nós.

man man, “against the peruvian monster”, in the man in a blue turban with a face, ace fu records, 2004.

referência

24.5.09


cxxvii. qualquer um de nós é meia espera e meia procura de si. daí que, feita parte demora e parte corrida, a vida não termine sem a hipótese de encontrar o monstro que, monstrum in fronte, monstrum in animo, aguarda por quem o procura, de modo a que, encontrando-se quem o procura, seja encontrado como destino, não como promessa.

pj harvey, “meet ze monsta”, in to bring you my love, island records, 1995.

referência

17.5.09


cxxvi. a metamorfose emerge necessariamente da identidade. a transmutação é o contrato entre a identidade e a alteridade, enquanto esta a instalar-se naquela, processo portanto. da fusão de alguém consigo decorrem hipóteses várias, entre as quais a do monstro. como se outra parte estivesse à espera de apelo, de sinal, para sair do núcleo de humanidade que há em cada um de nós. como se a revelação da monstruosidade fosse uma consequência do apuramento da pureza de cada um de nós.

einstürzende neubauten, “feurio!”, in haus der lüge, freibank / some bizarre records, 1989.

referência

3.5.09


cxxv. mal por mal, antes o ódio, a força do rancor capaz de arrancar corações e de magoar almas, do que a renúncia ao bem do tédio, a desistência pela continuação falida, a cedência ao espectro da normalidade. porque, mal por mal, os monstros são assistentes do que acontece e do que pode acontecer.

mão morta, “destilo ódio”, in corações felpudos, fungui, 1990.

referência

19.4.09


cxxiv. o mal cresce nas modalidades violentas em que se constitui. uma de tais modalidades é a possessão por amor, o amor que, na ânsia do império e de merecer a submissão a si, convoca a intenção do sangue e paga os beijos a preço de ciúme. este é o mal da aliança, o mal íntimo e próximo, o primeiro, sem monstros à vista.

the stone roses, “bye bye badman”, in the stone roses, silvertone records, 1989.

referência

5.4.09


cxxiii. a sensação de haver tempo para corrigir os erros, a sensação de haver sempre depois para ser melhor, é um dos sintomas perfeitos do mal. porque, mais do que pela compreensão dos monstros, é pela demora de si que alguém simultaneamente se transforma e se conforma consigo, de modo a consumar-se para o que é, a emancipação, a maldade.

the triffids, “when a man turns bad”, in born sandy devotional (remastered edition), mushroom records/domino recording company, 1986/2006.

referência

22.3.09


cxxii. há quem creia que o mal chega depois, proveniente de fora, vindo dos monstros. ou seja, há quem creia que o corpo de cada um de nós é originalmente um poço do bem e que, através de um agente perverso, o mal infiltra-se como infecção na nossa carne, colonizando-a e interrompendo o seu programa benfazejo. como ilusão arrasta ilusão, quem crê assim crê também no exorcismo como dispositivo para a resolução do mal, por via da erradicação do agente maléfico. mas quem crê assim engana-se, claro está, porque, quaisquer que sejam, as orações são adorno e conforto da malícia da condição humana, não são motivo de redenção da sua banalidade ou da sua identidade.

brian eno & david byrne, “the jezebel spirit”, in my life in the bush of ghosts, sire records, 1981.

referência

8.3.09


cxxi. o que faz alguém ser mau?, o aspecto e a maldade, não o espectro de qualquer monstro que eventualmente ronde tal alguém. e é assim independentemente de quem seja e o que faça quem partilha o sangue com esse mesmo alguém, irmão ou irmã. porque no mal não há irmandade ou sororidade, há motivo.

the beatles, “mean mr. mustard”, in abbey road, apple records, 1969.

referência


ano v

referência

22.2.09


cxix. voar tem como preço a queda, preço que se paga necessariamente em dor. ainda assim, é sempre a mesma ilusão, a ilusão de que alguém pode ser diferente de si - para salva-se da própria condição -, sendo quem não é, voando.

clinic, “the witch (made to measure)”, in do it!, domino recording company, 2008.

referência

15.2.09


cxviii. não sabemos o que não sabemos. perante este facto, há duas hipóteses, ou ignoramos ou arriscamos. um modo disto é o apelo que fazemos ao outro lado, o negro. porque se estima que voam, presume-se que, por beneficiarem de perspectivas superiores, as bruxas sabem mais do que quem não sabe o que não sabe. o que significa que a presunção é o motivo delas.

el olio wolof, “red witch of my dreams”, in a tedious task, 2008.

referência

1.2.09


cxvii. há só dois lados, costuma dizer-se, o direito e o avesso, o bem e o mal, não há vaga intermédia. admitida, esta asserção torna a geometria e a distribuição pelo espaço fáceis. mas de que lado estão os vultos e os corpos alados que extraímos de nós e imaginamos? estão no flanco nosso? ou estão no flanco alheio?, o dos monstros. a resposta falha justamente porque tais vultos e corpos alados são as sombras que, como irmãs negras, nos acompanham ou prenunciam. ao caçarmos essas sombras procuramos os espectros em que nos projectamos, disparamos sobre o nosso lado escuro, denunciamo-nos pelo escopo e pelo alvo, no arremesso e no acolhimento do impacto. isto não é feitiçaria, é estupidez.

iliketrains, “we go hunting”, in elegies to lessons learnt, beggars banquet, 2007.

referência

18.1.09


cxvi. dos feitiços às feitiçarias vai a superstição, vai pela humanidade, não pela monstruosidade. bem, superstição? ou persuasão?, ninguém sabe, sabe-se apenas pelo que vai. que é também pelo que permanece.

thurston moore, “wondeful witches”, in trees outside the academy, ecstatic peace!, 2007.

referência

4.1.09


cxv. antigamente cria-se que o bem distinguia-se e destacava-se do mal e que eram em tais distinção e destaque que os monstros jogavam a sua identidade. ia-se à bruxa por causa disto. dessas ocasiões vieram-nos os feitiços e as feitiçarias e tudo começou a ficar misturado, nós e os monstros, os monstros e nós. do que resultou que, para além de continuarmos a perder, passámos a ganhar o mesmo, porém em transe e a acreditar em vassouras voadoras.

flashguns, “good witch/bad witch”, in mad dogs and englishmen, 2007.

referência

28.12.08


cxiv. enquanto confirmação do que é expectável e porque é o que é, a normalidade constitui-se tanto evidência quanto conformação. a necessidade de explicação surge quando a normalidade é perturbada - hipótese desconfortável - ou interrompida - hipótese drástica. sendo interrompida, a normalidade transforma-se em enigma. os roteiros cognitivos e morais tornam-se ineficazes. justamente por isto, porque não há explicação para a suspensão da normalidade, é suscitado um processo de averiguação das culpas. alguém tem que ser culpado. abre uma época venatória extraordinária, acendem-se fogueiras. batida aos outros é o nome de muitos episódios da nossa história.

bloc party, “hunting for witches”, in a weekend in the city, wichita recordings, 2007.

referência

14.12.08


cxii. porque o desejo é um dispositivo de aspiração e ascensão, aquilo que é desejado é maior do que a condição de quem deseja. neste sentido desejar é mais do que esperar a constituição da diferença, é almejar a maioridade. pelo que, se o desejo orienta para a transformação própria, em muitas circunstâncias o corpo e o sangue de quem deseja não são suficientes para garantir aquilo que é desejado, o crescimento. nesta eventualidade, como os monstros, as bruxas ajudam ou assistem.

liars, “broken witch”, in they were wrong, so we drowned, mute records, 2004.

referência

30.11.08


cxi. com sangue para perder somos parcelas da eternidade. portanto, não é o sangue frio que nos pode valer. pois do mesmo modo que, se fôssemos desprovidos de coração, não existiriam vampiros - porque é o batimento cardíaco nosso que lhes fornece as coordenadas e a calda cálida de que se nutrem -, se não existissem vampiros, não seríamos o vaso sacrificial que somos e não existiriam os tormentos que merecemos.

alex & the horribles, “batman dracula”, in horribles!!, 2008.

referência

16.11.08


cx. o coração releva enquanto bombardeiro, vigor que difunde desde a artéria aorta até às veias cavas, não enquanto osso exposto a fractura eventual. mais, o coração constitui o fundamento de um cálice inteiro, do qual são derramados o princípio e o fim nossos, cálice que, porque a ele aspiram avidamente, inspira os vampiros e a sua vantagem, dita vantagem nossa também e a condição da nossa perdição.

giraffes? giraffes!, “when the catholic girls go camping, the nicotine vampires rule supreme”, in more skin with milk-mouth, loves in heat records, 2007.

referência

2.11.08


cix. o sangue é permanente e sem vésperas. daí que ontem não seja tempo em que os vampiros possam ser conjugados. o remorso único que os vampiros sentem é o do sangue atrasado, por não servir-lhe a dieta.

margot and the nuclear so and so’s, “vampires in blue dresses”, in the dust of retreat, artemis records, 2006.

referência

19.10.08


cviii. tudo começa no sangue, a identidade e o império, as perdas e os ganhos. no entanto afirmar que tudo acaba no sangue é errar, porque nenhum monstro erra no sangue. aliás, não é por acaso que errância e monstruosidade não são sinónimos de contaminação ou de hemodiálise.

antsy pants, “vampire”, in antsy pants, plan-it-x records, 2006.

referência

5.10.08


cvii. a carne medeia o sangue, o sangue institui a diferença. o que significa que, tanto pela derrota quanto pelo triunfo, alguém tem que sangrar para ser quem é. nesta circunstância qualquer transfusão é a transferência de uma condição definida, a de quem perdeu ou a de quem ganhou, a uma carne que pode ser o seu avesso, não necessariamente a uma carne que lhe corresponda. uma história banal com vampiros, portanto.

arctic monkeys, “perhaps vampires is a bit strong but...”, in whatever people say i am, that’s what i’m not, domino recording, 2006.

referência

21.9.08


cvi. imaginação?, talvez não seja. um sopro, prenúncio da aspiração, não do beijo. o esmalte sobre a pele, encostado, depois na carne, cravado. ao contacto apertado segue-se a sensação de alívio, esta é a sequência. e perdes, perdendo-te, no mesmo sangue, o teu, que serve-te tanto quanto serve os monstros que te proclamam.

xiu xiu, “brian the vampire”, in fabulous muscles, 5 rue chistine, 2004.

referência

7.9.08


cv. a herança e a conquista trazem o sangue. confunde-se jogo com fogo. o incêndio serve alguém, como serve-lhe o sangue também.

arcade fire, “vampire/forest fire”, in arcade fire, merge records, 2003.

referência

24.8.08


ciii. as histórias com vampiros servem um propósito sobretudo, avisar, pela convocação dos monstros, que, numa modalidade fatal, a vida, o sangue é o motivo e a oportunidade tanto da morte quanto da eternidade, não da medalha de prata.

bauhaus, “bela lugosi’s dead”, in bela lugosi’s dead, small wonder records, 1979.

referência

10.8.08


cii. a solidão é a nossa dieta, porque alimentamo-nos do que somos, humanidade. é por isso que carne é o nome ditado a quem somos, o que faz de cada um de nós a oportunidade e o suborno da abstinência por quais, porque são monstros e não nós, os monstros não se corrompem.

wolf parade, “fine young cannibals”, in at mount zoomer, sub pop, 2008.

referência

27.7.08


ci. um acidente e começa a operar o lado oculto que somos, a sobrevivência, sem necessidade de estímulo de monstros ou da assistência de orações. o canibalismo é uma questão de oportunidade.

alterkicks, “the cannibal hiking disaster”, in do everything i taught you, b-unique records, 2007.

referência

13.7.08


c. corpo contra corpo, esta é a posição inicial. como nós e entre nós os canibais rondam a carne, a nossa carne, de onde, para si, extraem o ritmo e o sentido. a nossa alma e o nosso coração revelam-se órgãos amargos. à distância, os monstros limitam-se a observar o banquete, em estado contemplativo, como se, pelo que testemunham, estivessem a aprender melhor a ser o que são, aprendendo o que somos.

nick cave & the bad seeds, “cannibal’s hymn”, in abattoir blues, mute records, 2004.

referência

29.6.08


xcix. diante da margem, o limite da nossa carne, que em autêntico constitui um precipício, são muitas as dúvidas. uma dessas dúvidas é sobre a fome dos monstros, até onde alcança. é por isso que, sob a culpa do figmentum malum que somos, perguntamos por que é que os monstros não comem outros monstros? os monstros não nos comem, esta é a resposta, por uma questão de condição - os monstros são nossos amigos - e por uma questão de dieta - os monstros não são antropófagos.

ministry, “cannibal song”, in the mind is a terrible thing to taste, sire records, 1989.

referência

15.6.08


xcviii. embora comece como manifesto, o corpo cresce até ao limite da soberania, transmutando-se em dispositivo de ofensiva, que, se cede à sedução da revolta, solta-se para a sedição. o que significa que, embora comece manifestado, o corpo confirma-se como instrumento da violência que suporta e devolve e com a qual é fundada a comunidade. se sob tais condições ninguém vê os monstros, é porque a amizade não é de ver, é de como ver.

elliott smith, “riot coming”, in new moon, kill rock stars, 2007.

referência

1.6.08


xcvii. abandono? ou saída?, ninguém sabe. também pode ser dissidência, não se sabe. os monstros são estranhos no modo como convocam a nossa evasão, porque, mais do que a fragmentação da unidade dos nossos corpos e os destroços que daí resultam, interessam-lhes a reunião da solidão consigo e o motim que tal reunião consegue e suscita em nós.

bright eyes, “no one would riot for less”, in cassadaga, saddle creek records, 2007.

referência

25.5.08


xcvi. e quando o levantamento não basta - por não encher a carne com a agitação suficiente -, quando o corpo não alcança a comunidade feita na rua - porque na multidão os outros permanecem estranhos -, quando o arremesso de pedras e as crateras abertas no chão não são motivo comum - porque propiciam o acidente, não o encontro -, aumenta o chamamento dos monstros de dentro para o tumulto, a que os gestos correspondem, confirmando o incêndio na coreografia dos distúrbios.

jens lekman, “do you remember the riots?”, in when i said i wanted to be your dog, secretly canadian, 2004.

referência

18.5.08


xcv. o fim é o nome de um dos monstros de passagem comuns. sob o seu efeito, tudo parece terminar como se não houvesse depois, como se, após a falência ou a separação dos amantes, as margens de um princípio novo e possível tivessem sido extintas. nesta sequência começa o purgatório, a memória da traição, o limbo da solidão, continua o fim. e, porque a culpa não se transmite por herança, aí o abandono dura até ao momento do resgate pela sedição. os monstros do princípio apelam à insurreição.

the national, “daughters of the soho riots”, in alligator, beggars banquet, 2005.

referência

4.5.08


xciv. a sociedade é o teu monstro da guarda, sê-a também. segue a voz que te indica a revolta como solução. deixa de esconder-te na tua reserva mental, ergue o teu corpo em barricada, empresta-o à força da presença. vai, continua. a sociedade está dentro de ti tal como tu estás prenhe de rua. não adianta tentares fugir, para onde fores, dentro ou fora, levarás a sociedade contigo também. o que escondes é o que mostras.

elbow, “some riot”, in the seldom seen kid, geffen records, 2008.

referência

20.4.08


xciii. no princípio é e está a distância, o nome geométrico do que permite a solidão. há um corpo armado e arrumado a si, quieto, sem devolução ou reparação. na sua quietude é também a alienação, como vaga que apela à insânia e ao que é e está por ela. há também monstros à espreita, que não são a solidão. eles aproximam-se e, celebrando-se no tumulto que convocam, sobressaltam o corpo, agitam-o, despertam-o para a perturbação. acordado, o corpo cede e é preenchido por uma vontade gregária, o motim. é para aí que, jogado, o corpo se projecta, manifesto e sede do seu levantamento.

stars, “take me to the riot”, in our bedroom after the war, arts & crafts, 2007.

referência

6.4.08


xcii. o estado preferido dos monstros é a exaltação. é por isto que a adolescência é a idade em que, no corpo ou na rua, os monstros começam a manifestar-se, até constituírem-se definitivamente como o modo do distúrbio, consumado, se público, consumido, se íntimo. e assim crescem, agitados, para serem maiores e eternos.

sonic youth, “teen age riot”, in daydream nation, blast first, 1988.

referência

9.3.08


xc. tentar eliminar um demónio não resolve qualquer problema. antes de mais porque, para além de ser uma manobra potencialmente homicida ou suicida, configura uma ofensa ao contrato de amizade com os monstros. depois porque os demónios têm descendentes e, dentro ou fora de quem os tenta eliminar, são capazes de repetir-se e de constituir-se tanto na tentativa da sua eliminação quanto, antes, na convocação de tal tentativa. é que os demónios são em dois mundos, no deles e no nosso, que é deles também.

elf power, “the demon’s daughter”, in in a cave, rykodisc / wea records, 2008.

referência


ano iv

referência

24.2.08


lxxxviii. a perseguição movida pelos demónios é uma perseguição que nos é interior. é também dentro de nós que, como os esperamos e vigiamos, os demónios nos esperam e vigiam. eles por eles e por nós, nós por nós e por eles, mais do que por cumplicidade ou por intimidade, por identidade, mesmo.

marah, “the demon of white sadness”, in if you didn’t laugh, you’d cry, yep roc records, 2005

referência

10.2.08


lxxxvii. na carne mesma, assim como no espírito mesmo, acontece a possessão, a relação possível e única entre alguém e o seu demónio, que é uma relação mútua e recíproca tão cingida e íntegra quão são a identidade e o reflexo de cada um de nós. do que resulta o facto de a expressão «demónio meu» ser uma expressão tanto de compreensão quanto de amor próprio.

13ghosts, “oh my demon!”, in your window is burning, 13ghosts music, 2002.

referência

27.1.08


lxxxvi. existe-se em cerco, o que significa que alguém, qualquer quem, é e orienta-se pelos reflexos e pelos projectos que consegue com e contra o cerco em que existe. porém, sob a condição de tal existência, subsiste uma interrogação. em identidade, o que distingue alguém do demónio em que participa? não é a sua dúvida, não é a sua promessa, não é a sua carne. porque pelas dúvida, promessa e carne mesmas alguém é quem é e é também o demónio que é.

bonnie ‘prince’ billy, “am i demon”, in ask forgiveness, domino records, 2007.

referência

13.1.08


lxxxv. a vida, nomeadamente o seu sentido, resulta do combate permanente com os demónios, todos os demónios. dos que nos levam, aprendemos a orientação. dos que nos falham, conseguimos a duração. dos outros, se não somos o regresso, somos a sua confirmação.

the sugarcubes, “delicious demon”, in life’s too good, one little indian records, 1988.

referência

30.12.07


lxxxiv. e se, súbito, um espectro aproximar-se e relatar o que irá acontecer, desfazendo o futuro num enunciado de antecipação, o que poderá ser diferente? a história ainda continuará a ter o final feliz prometido?

regina spektor, “ghost of corporate future”, in soviet kitsch, sire records, 2004.

referência

16.12.07


lxxxiii. se os fantasmas vão?, não, os fantasmas não vão. como qualquer outro modo de monstro, o seu movimento típico é a aproximação, a vinda. é por isso que sob o domínio fantasmagórico não há hipótese de redenção ou remorso. fugir é ir ao encontro dos fantasmas.

man man, “banana ghost”, in six demon bag, ace fu records, 2006.

referência

2.12.07


lxxxii. quantas histórias?, quantas?, são necessárias até tornar-se evidente que cada fantasma é inquilino de uma alma e não um espectro ambulante, sem domicílio. quantas histórias?, quantas?, são necessárias até confirmar-se que, pela demora, fantasma e alma fundem-se, gerando uma entidade única, um prodígio, esquivo - como todos os prodígios -, simultaneamente garantia e engano. quantas histórias?, quantas?, são necessárias até sermos capazes de nos reconhecer pelo flanco fantasmagórico - que vai da condição vaga à disposição oculta -, flanco a que não podemos renunciar sem renunciarmos a nós próprios, à carne e ao espírito que, por junto, somos graciosa e desgraçadamente.

neutral milk hotel, “ghost”, in in the aeroplane over the sea, merge records, 1998.

referência

18.11.07


lxxxi. sob o domínio e a soberania das criaturas dos outros mundos, o caso constitui uma equação simples, de grau menor. o medo que os fantasmas suscitam é um temor cerebral, apenas e só.

the cure, “fear of ghosts”, in love song, elektra records / wea, 1991.

referência

4.11.07


lxxx. uma das incógnitas da condição do desassossego é o local de origem dos monstros. de onde promanam?, de uma posição interior? ou de uma posição exterior? o apuramento de tal posição é determinante para a defesa porque, desconhecendo-se o alojamento original dos monstros, não há como saber-se como se deslocam, se de dentro para fora, se de fora para dentro do corpo, o meu, o teu, o dela, o dele, o nosso, o corpo comum, o corpo que os monstros habitam.

band of horses, “monsters”, in everything all the time, sub pop records, 2006.

referência

21.10.07


lxxix. puros de pureza, como anjos, os monstros vêm-nos ao corpo, dobrando a face como janus, fazendo o amargo e o doce que nos acontecem na boca, concedendo a loucura e a razão de que somos capazes.

modest mouse, “3 inch horses, two faced monsters”, in everywhere and his nasty parlour tricks, sony music, 2001.

referência

14.10.07


lxxviii. os monstros escondem-se onde os guardamos, em locais íntimo e recônditos, a cave, o sótão, a gaveta da mesa de cabeceira, debaixo da cama, o guarda-roupa, a noite, a madrugada, mas regressam sempre pela mesma via, o nosso corpo, o corpo em que necessariamente são.

gnarls barkley, “the boogie monster”, in st. elsewhere, downtown records, 2006.

ao programa centésimo.

referência

7.10.07


lxxvii. porque são nossos amigos, acompanhemos os monstros na sua procissão.

bobby ‘boris’ pickett, “monster mash”, in monster mash, polygram records, 1962.

referência

30.9.07


lxxvi. as palavras precipitam-se para o mal com as mesmas frequência e cadência com que se precipitam para o bem. mas há uma regra da ordem que preecreve o silêncio sobre o mal. porquê?, porque os legisladores julgam que falar sobre o mal é despertar os monstros adormecidos sobre a pele e que emprestam um alcance maior às mãos. equívoco, claro. os monstros, mesmo os monstros do mal, não dormem. alguns até pastam nos silêncios.

wayne shorter, “speak no evil”, in speak no evil, blue note records, 1965.

referência

22.7.07


lxxi. face a face é como perguntamos pelos monstros, pelos que assustam e pelos outros, os estranhos. porém o susto e a estranheza dissolvem-se quando abrimos os olhos e encaramos o reflexo que nos é devolvido. porque cada um percebe que, ao fugir de si, encontra-se no destino. o que significa que somos sem saída de nós.

david bowie, “scary monsters (and super creeps)”, in scary monsters (and super creeps), rca records, 1980.

referência

8.7.07


lxx. começa por ser uma contaminação confortável, acaba por ser um sopro agitado. e se a fuga que perseguimos é um monstro mais do que em casa, no corpo, alojado aí, que destino escolher, a culpa? ou o remorso?

yeah yeah yeahs, “black tongue”, in fever to tell, interscope records, 2003.

referência

27.5.07


lxvii. somo-nos estranhos. por isso olhamos para nós em busca da própria fronteira, do limite, o mesmo que nós, a partir do qual somos capazes de nos (re)conhecer. quem somos?, que rosto?, que mãos?, que pés?, que corpo inteiro?... e sucedem-se as interrogações diante do espectro com que nos controntamos por dentro e fora de nós, como se fôssemos simultaneamente o fantasma, a voz e a lei que, porque somos, nos faz a identidade.

patrick wolf, “ghost song”, in wind in the wires, tomlab, 2005.

referência

29.4.07


lxv. à noite, rente à hora dos sonhos, os homens e os lobos são mais generosos e estranhos consigo, como se o seu sangue lunar fosse mais diluído e a sua identidade solar fosse outra, híbrida, alma e corpo de monstro e vice-versa.

cocorosie, “werewolf”, in the adventures of ghosthorse and stillborn, , 2007.

referência

18.3.07


lxi. a condição do tempo fere, o tempo mata. sob a sua vertigem há quem olhe para o corpo, testemunhe-o, e tente as suas veias como portal de evasão. é por essa manobra que, em muitas circunstâncias, damos guarida ao demónio, fazendo-o colónia do nosso corpo, porque, com ele, comungamos alma e carne, que são uma e uma só. e, com pose e transe, caímos e quedamo-nos soberanos.


tv on the radio, “let the devil in”, in return to cookie mountain, 4ad, 2006.

referência

11.3.07


lx. quando cresce a noite, o tempo parece diluir-se e demorar a solidão dos insones e saídos à rua. ao mesmo tempo que os vizinhos dormem, um espectro preenche as sombras com negro navajo, marcando o regime severo dos acordados. os monstros não dormem, nunca dormem.

the mountain goats, “new monster avenue”, in get lonely, 4ad, 2006.

referência

4.3.07


lix. na cidade existia um monstro e uma dúvida. entre os seus habitantes, quem era esse monstro?, se todos, por o poderem ser, o eram.

soul coughin, “monster man”, in el oso, warner brothers / wea records, 1998.

referência


ano iii

referência

2.7.06


xlviii. há hipóteses, como o esquecimento ou a recusa, que não estão disponíveis no intervalo escasso entre nós e os monstros. aliás, como consequência da intimidade por aí constituída, os monstros são a sinestesia em nós, simultaneamente a traquilidade e a inquietude.

annie ross e gerry mulligan, “between the devil and the deep blue sea”, in annie ross sings a song with mulligan, world pacific, 1958.

referência

25.6.06


xlvii. vamos envelhecendo. com o passar do tempo, deixamos de saber o paradeiro dos monstros, inclusive o maior deles, o monstro do apelo derradeiro. envelhecemos. deixamos de saber os monstros, deixamos de saber os seus filhos também.

black rebel motorcycle club, “devil’s waitin’”, in howl, red int/red ink, 2005.

referência

18.6.06


xlvi. se protegidos pela distância, porque nos habitam fundo, não é possível aferir com rigor a dimensão dos fantasmas.

deus, “little ghost” in my sister = my clock, island records, 1995.

referência

11.6.06


xlv. fingidos, entre a brasa e a brisa, os fantasmas correm-nos pelos sentidos, como se fossem anjos da cidade dos nossos sonhos, pacíficos. mas não são. e o tempo, tanto pelo contacto quanto pelo sobressalto, demora a fazer-nos perceber esse facto. daí que seja já tarde quando ficamos cientes que as nossas mãos levam-nos pela cidadela dos nossos pesadelos, não pela cidade dos nossos sonhos.

tarnation, “like a ghost”, in mirador, warner brothers / wea, 1997.

referência

4.6.06


xliv. crescemos sob a tutela de monstros invisíveis, os fantasmas. no entanto, momentos há em que eles adquirem uma evidência impressionante. nesse estado e nessa condição, porque em domínio e presença, manifestam-se de modo soberano, tentanto semear em nós o medo. quase nada os resolve ou afasta. por isso tenta-se o bourbon e insiste-se, por ser o único meio imediato e doméstico de lavar os fantasmas dos nossos sentidos.

gomez, “chasing ghosts with alcohol”, in how we operate, red int/red ink, 2006.

referência

28.5.06


xliii. ocasionalmente existe-nos dentro uma sombra que, como um sopro suspenso em perseguição, ocupa todo o espaço e transforma o que remanesce em penumbra. essa sombra altera-nos os regimes da fome e do sono, afecta-nos todos os sentidos, sobretudo a visão. porque essa sombra é o monstro, em fantasma, a que, à falta de rótulo mais exacto, se chama amor.

the white stripes, “little ghost”, in get behind me satan, xl, 2005.

referência

21.5.06


xlii. às vezes são os anjos, monstros alados, que partem o céu, construindo a diferença no território, deixando de um lado, o superior, o empíreo e do outro lado, o inferior, o fosso de enxofre. e é sobre essas margens, sem as encontrar, que, depois, troa a voz dos anjos, expressão da sua condenação, da sua solidariedade, da sua partida, da sua queda.

the vetiver, “angels’ share”, in vetiver, dicristina, 2004.

referência

14.5.06


xli. os monstros entram em nossa casa, o nosso corpo, pela infância. aí jogam a sua condição trágica, alterando-nos os sonhos, até, pelo cansaço, se embalarem e adormecerem, devolvendo-nos então o sono que, antes, pelo assombro, nos acordaram.

eric herman & the invisible band, “there’s a monster in my house”, in the kid in the mirror, butter-dog artist, 2003.

referência

23.4.06


xxxix. não obstante o esperanto que vestem na sua identidade e nos seus modos, os monstros sofrem as consequências de babel, folheiam dicionários, traduzem o espanto, cotejam o medo, murmuram, falam, clamam e riem em todas as línguas.

andrew bird, “spanish for monsters”, in fingerlings 2, grimsey, 2004.

referência

16.4.06


xxxviii. os monstros são criaturas de susto, não são para abraçar ou colher nos braços como se fossem um animal de estimação. mas há monstros, monstros pequenos, monstrinhos, que, em segredo, choram e rogam a alguém superior, à maior e mais divina das monstruosidades ou ao seu filho unigénito, que os livre da misericórdia alheia e da simpatia com que, porque falhados, são olhados pelos outros.

morrissey, “november spawned a monster”, in bona drag, reprise / wea, 1990.

referência

2.4.06


xxxvii. há um mar onde os monstros comem o silêncio.

the beatles, “sea of monsters”, in yellow submarine, capitol, 1969.

referência

26.3.06


xxxvi. num modo diferente de ser anjo da guarda, há monstros, ocultos, que nos vigiam e confortam com a sua ausência, deixando apenas presente o demónio que somos, sem nos permitir saber o seu paradeiro.

those legendary shack shakers, “where’s the devil... when we need him?”, in believe, yep roc records, 2004.

referência

19.3.06


xxxv. às vezes somos incrédulos. por isso, entramos na casa do diabo e aguardamos a sua revelação. a espera, porém, demora, eterniza-se. porque ele apenas se mostra quando (nos) olhamos (a)o espelho.

sufjan stevens, “in the devil’s territory”, in seven swans, sounds familyre, 2004.

referência

5.3.06


xxxiv. há monstros que são criaturas bucólicas. são os que jogam os ventos, os que jogam os enganos e nos ensinam a maior das suas competências: o incêndio e, antes, o testemunho desde o rastilho.

devendra banhart, “cosmos and demos”, in oh me, oh my... the way the day goes by the sun is setting dogs are dreaming lovesongs of the christmas spirit, young god records, 2002.

referência

19.2.06


xxxiii. os monstros, mesmo os que acontecem demónio, têm os seus dias de recolha e têm os seus dias de caça. são os nossos dias ao contrário.

laurie anderson, “the day the devil”, in strange angels, warner brothers / wea, 1989.

referência

12.2.06


xxxii. quando acordam, o primeiro sentido que os monstros experimentam é o tacto. de imediato tocam-se para, depois, pela perseguição, nos alcançarem e tocarem melhor.

lydia lunch, “touch my evil”, in smoke in the shadows, atavistic records, 2004.

referência


ano ii

referência

5.2.06


xxxi. os monstros, todos os monstros, são um dispositivo de espanto. albergam-se tanto nos corpos dormentes quanto nos corpos despertos, conquistam-nos e emprestam-lhes fulgor. e, assim, por constituírem uma diferença para a qual apenas há incredulidade, os monstros são também o horto da loucura que vivifica e liberta os corpos da sua condição.

poesie noire, “gardens of insanity”, in tales of doom, 1987.

referência

1.1.06


xxx. os anjos são uma espécie em vertigem, espectros de manobras aladas, como os falcões. se sobem é porque têm asas que os conduzem à luz. se jazem é porque alguém, autoridade maior, os empurrou para o chão. mas, seja em domicílio sideral, seja em domicílio telúrico, os anjos são sempre monstros, monstros que voam e caem dentro de nós. ou seja, são monstros e estrelas d’alba.

current 93, “angel”, in swastikas for noddy, 1987.

referência

25.12.05


xxix. em cada criança há um monstro que se revela pela nascença e depois.

radiohead, “i am a wicked child”, in com lag (2plus2isfive), 2004.

referência

18.12.05


xxviii. às vezes, supremos, os monstros, em demónio, são-nos na alma.

fun’da’mental, “demonised soul (my head bus on a hard surface but i could never hurt me)”, in erotic terrorism, 1998.

referência

11.12.05


xxvii. há monstros, em demónio, que nos acontecem no coração e são navegados no nosso sangue.

pixies, “evil hearted you”, in planet of sound, 1991.

referência

4.12.05


xxvi. e ainda antes dos sete selos quebrados, caíram as trevas sobre os gestos, o véu nocturno, domínio e ceptro preferencial dos monstros.

cocorosie, “armageddon”, in noah’s ark, 2005.

referência

20.11.05


xxv. nas estórias de belas e monstros, o monstro é sempre o amor, o único demónio a que se finge conseguir sobreviver.

antony & the johnsons, “frankenstein”, in hope there’s someone, 2005.

referência

13.11.05


xxiv. o diabo, um dos maiores dos monstros, se existisse numa qualquer encruzilhada, tocaria guitarra e teria outro nome.

the jesus and mary chain, “bo diddley is jesus”, in barbed wire kisses, 1988.

referência

30.10.05


xxiii. um dia acorda-se com a sensação de game over. não é tarde, é já depois. depois de um monstro, íntimo veneno, ter caminhado demoradamente pelos domínios do corpo e nele se ter alojado para não mais ser resgatado.

pj harvey, “the slow drug”, in uh huh her, 2004.

referência

23.10.05


xxii. a vida, como autenticamente é, acontece à noite, todas as noites, quando os anjos acordados, monstros solenes, com o bater frenético das suas asas, desenham a temperatura que faz arrefecer a cidade.

interpol, “say hello to the angels”, in turn on the bright lights, 2002.

referência

2.10.05


xxi. na véspera do fim do mundo, vêem-se espectros incandescentes a ensaiar coreografias de incêndio. é o último sinal de simpatia dos monstros. depois é a febre.

belle chase hotel, “paganini’s fire”, in la toilette des étoiles, 2000.

referência

31.7.05


xx. o paraíso é uma estância apetecível. mas, como nos ensinam as graves vozes dos monstros em oração, o destino de tudo, de todas as coisas e de todas as criaturas, é a sua origem, o lugar dos nove círculos, o inferno.

tom waits, “everything goes to hell”, in blood money, 2002.

referência

24.7.05


xix. todos nós somos dois, o que somos e o que não somos. para além disso, no que somos, somos a cápsula simultânea do bem e do mal. é por isso que por vezes nos assoma o desejo de termos um irmão gémeo que seja o nosso lado mau, o monstro que nos habita e que não conseguimos honradamente ser.

magnetic fields, “i wish i had an evil twin”, in i, 2004.

referência

17.7.05


xviii. às vezes, o diabo é diabo em figura de gente, disfarçado entre nós, um monstro bonito. charmoso, ele chama-nos e nós, encantados enganados, vamos. para meter a mão, para tocá-lo.

the smiths, “handsome devil”, in hatful of hollow, 1984.

referência

10.7.05


xvii. sem aviso, desce sobre nós uma espécie de benção ao contrário. como consequência, o diabo carrega-nos sobre as suas costas e, aos saltos e aos pinotes, leva-nos pelo recreio da vida. é quando, sem disso termos consciência, somos levados para um dos mundos dos monstros. este mundo chamado inferno.

nick cave & the bad seeds, “up jumped the devil”, in tender prey, 1987.

referência

3.7.05


xvi. começou a guerra dos mundos. uma mão cheia de monstros entrou neste mundo pela televisão. eram cinco pequenos monstros, exactamente, todos diferentes, ainda assim todos monstros. e tinham um único plano para a ofensiva, socializarem com os humanos-monstro. serem amigos.

iggy pop, “monster men”, in monster men, 1997.

referência

5.6.05


xv. um dia, sem avisar, chegou, caído, caído com estilo, um anjo negro. vinha do mundo dos monstros e procurava alguém. alguém que quisesse ser seu amigo e o levasse às compras. alguém que tivesse um cartão de crédito. pois a amizade, mesmo a amizade aos monstros, tem um preço.

laurie anderson, “dark angel”, in life on a string, 2001.

referência

29.5.05


xiv. às vezes, as estórias com monstros são ao contrário. por exemplo, se a vontade que nos habita for grande, conseguimos subjugar os anjos e obrigá-los a uma dieta de fome. pois, enquanto os anjos estiverem sob essa dieta, é possível guardarmo-nos na embriaguês de sombras em que nos desejamos amortalhados.

elysian fields, “drunk on dark sublime”, in dreams that breathe your name, 2004.

referência

22.5.05


xiii. os anjos maus não são criaturas justas. é por isso que nos comem os sonhos e, depois, para consumar a perseguição, nos beijam com a sua amarga e alada exaltação, sem nunca, antes do abandono, nos dizerem adeus.

rufus wainwirght, “evil angel”, in poses, 2001.

referência

15.5.05


xii. os monstros são criaturas capazes de metamorfose. vestem-se com formas de animais para se disfarçarem de si e assustarem quem enganam. alguns dos monstros ensaiaram tanto esse disfarce que habituaram-se a ser lobos, mas não peça de alcateia. às vezes, é mesmo possível encontrar um lobo à porta. porque, como qualquer vulgar lobo mau, quer entrar. primeiro no lar. depois em quem aí reside.

radiohead, “a wolf at the door”, in hail to the thief, 2003.

referência

8.5.05


xi. somos o lugar e o domicílio de todas as solidões. o que significa que a solidão é um modo de companhia. porém não é apenas um modo de companhia. a solidão é também o gesto pelo qual alguém é habitado excessivamente por si mesmo, produzindo, como um rasgo, uma sensação de destaque em relação aos cercos, imediatos ou afastados. é por isso que a solidão é um dos monstros mais íntimos de nós.

sonic youth, “nyc ghosts & flowers”, in nyc ghosts & flowers, 2000.

referência

1.5.05


x. se os monstros fossem criaturas monstruosas não se alojariam nos nossos pesadelos e espantos. também não haveria canções sobre eles. mas há. porque, por serem nossos amigos, nós cantamos os monstros.

danny elfman, “oogie boogie’s song”, in the nightmare before christmas (ost), 1993.

referência

24.4.05


ix. todos nós somos dois, o que somos e o que não somos. para além disso, no que somos, somos a cápsula simultânea do bem e do mal, como o dr. jekyll e o mr. hyde. pelo que é estranho que seja já tarde quando nos descobrimos, quando descobrimos que os monstros somos também nós.

serge gainsbourg, “docteur jekyll et monsieur hyde”, in en concert - le theatre le palace 80, 1980.

referência

17.4.05


viii. um dos exemplares mais domésticos da galeria dos monstros é o diabo. o diabo é um anjo caído, condenado ao chão. é um monstro que erra pela terra e cujo único ofício é a procura de portas. é por isso que, passado esse limiar de reserva, ultrapassada essa franquia de segurança, o diabo está no meio de nós.

experience, “le diable sur ta porte”, in hémisphère gauche, 2004.

referência

10.4.05


vii. no mundo dos monstros, não há maior miséria do que a pobreza de posses. não ter ou ter poucos haveres que entretenham faz-lhes a tristeza. entre os anjos, a espécie mais ociosa dos monstros, é assim também.

mão morta, “anjos de pureza”, in há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável, 1998.

referência

3.4.05


vi. um dos menos falsos dos monstros é o anjo novo, aquele que paira sobre os destroços e, de cima, superior, anuncia a decadência e as sombras da modernidade. é esse anjo, o anjo novo - o único dos monstros não fingidos -, que diz: sou o vigilante da nova aliança e da desesperança.

mão morta, “eu sou o anjo do desespero”, in müller no hotel hessischer hof, 1997.

referência

27.3.05


v. de entre todos os monstros, os que mais espantam são os anjos da guarda, porque são aqueles cuja identidade mais se confunde com a dos mortais. voam e agitam as asas. pousam sobre os ombros das pessoas. e, daí, como sentinelas inúteis, com patente, contemplam e guardam o que não há para guardar: a vida de quem vive.

mão morta, “anjos marotos”, in vénus em chamas, 1994.

referência

20.3.05


iv. os anjos, todos, qualquer que seja a sua cor, são monstros, monstros íntimos, monstros das nossas vidas e das nossas orações.

cocorosie, “terrible angels”, in la maison de mon rêve, 2004.

referência

6.3.05


iii. no mundo dos monstros, o mundo de todos os nossos dias, existem demónios brancos, mas não apenas demónios brancos. existem também anjos negros, anjos que pairam sobre os destroços e os contemplam como obra sua, anjos que caem e morrem, anjos aos quais foi dedicado um único requiem.

the velvet underground, “the black angel’s death song”, in the velvet underground & nico, 1967.

referência

27.2.05


ii. uma das propriedades mais reservadas dos monstros é a sua cor. mesmo que sejam seres camaleónicos – fingidos na cor a que se emprestam –, mesmo que revoltem a paleta das cores com que simulam a respectiva identidade, os monstros, despidos de si, têm uma cor, mas cor que, sem investigação, não se sabe. não é motivo de estranheza, pois, que a cor dos demónios, uma das espécies maiores de monstros, seja um mistério. mistério que se ultrapassa e revela apenas pela aproximação, pela intimidade.

echo & the bunnymen, “my white devil”, in porcupine, 1983.

referência

13.2.05


i. a amizade é uma relação recíproca. o que significa que os amigos são amigos dos seus amigos. neste sentido, não são apenas os monstros que são nossos amigos. também nós somos amigos dos monstros.

the rolling stones, “sympathy for the devil”, in beggar’s banquet, 1968.

referência


ano i

referência


© filipe saraiva

referência

2005/2009 - constantino corbain (alguém por © sérgio faria).